Presidente do Conselho Económico e Social considera que a região foi das que mais perderam com a globalização
PEDRO ARAÚJO
O país está numa situação muito complicada e antevejo muitas dificuldades nos próximos tempos. Temos o problema da dívida perante o exterior e o provável aumento das taxas de juro”, afirma José Silva Peneda, recém-eleito presidente do Conselho Económico e Social.
No âmbito da iniciativa “Almoços JN”, o ex-ministro de Cavaco Silva e antigo eurodeputado pelo PSD, olha com preocupação para a actual situação sócio-económica do Norte e propõe soluções no quadro da União Europeia (UE) para as regiões que mais sofrem com a globalização.
“Se imaginássemos que os Estados centrais implodiam, a Galiza e o Norte de Portugal formam claramente um país, partilhando características muito próprias”, acrescenta, mostrando-se um adepto do aprofundamento dos laços daquela euro-região. Apesar das similitudes, o fosso de desenvolvimento é hoje notório. “Há cerca de uma década, o PIB per capita da Galiza e do Norte de Portugal era idêntico e agora a diferença é superior a 40%. A grande diferença entre as duas regiões ibéricas reside na organização do respectivo sistema político”.
Silva Peneda considera que há políticas que fazem sentido para o Norte e não para outras regiões. ” Se houvesse regionalização, ninguém imagina que as políticas para a região Norte fossem fotocópia das políticas do poder central.
Em conversa com o director do “Jornal de Notícias”, José Leite Pereira, o eleito presidente do CES, que ainda aguarda pela data da tomada de posse, recuou aos tempos da sua juventude, altura em que frequentava o liceu D. Manuel II, no Porto. Entre os anos 50 e 70, o 5.º ano de escolaridade era a ambição que a família média portuense tinha para os respectivos filhos. Era a garantia de emprego, nomeadamente na banca. Mas tudo mudou. O mestrado é hoje o objectivo de quem estuda e os empregos para quadros qualificados escasseiam no Porto. “Depois do 25 de Abril, era natural ter reuniões no Porto com administradores de bancos e de companhias de seguros. O próprio BPI e BCP, que nasceram na CCDR-Norte, já não têm a administração no Porto. Hoje em dia, um jovem quadro da banca que esteja no Porto está sem perspectivas de evoluir na carreira”.
Mas a escassez de empregos no Porto é apenas um sinal de que algo está mal no conjunto da região Norte, um facto que os indicadores económicos regionais têm provado. Fundando-se na sua experiência ministerial e recorrendo ao seu passado recente enquanto eurodeputado, Silva Peneda avança com propostas concretas no capítulo dos fundos comunitários.
A distribuição dos fundos dentro da União Europeia (UE) é feita em função do critério das regiões mais pobres. “É uma análise estática. Acho que devíamos introduzir aqui uma análise dinâmica. Com a globalização, há sempre o risco de perder, mas o mesmo fenómeno fez com que várias regiões alemãs que exportam tecnologia têxtil ganhassem. Não é nada de novo. Quando o problema se colocou com a siderúrgia alemã, na bacia do Ruhr, houve apoios substanciais. Não vi qualquer voz a exigir esta reforma”. José Leite Pereira não deixou de questionar o presidente do CES sobre a viabilidade de programas específicos para regiões como o Norte de Portugal. “Tudo depende da forma como a ideia for apresentada. A questão nunca deve ser apresentada como sendo o problema da minha região”, respondeu, lembrando que Portugal conseguiu, no passado, algo semelhante com o Programa Específico para o Desenvolvimento da Indústria Portuguesa (PEDIP).
O desvio de verbas do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) do Norte para a região de Lisboa – efeito “spill over” – merece um breve comentário por parte de Silva Peneda. “Não concordo e é uma coisa mal feita para resolver um problema surgido na capital. O problema está mais nos princípios e menos nos montantes envolvidos”. O Norte também perdeu com a fusão dos patrões (AEP e AIP)? Silva Peneda discorda. “Quanto mais fortes forem os parceiros sociais, tanto melhor”, diz o recém-eleito presidente do CES.
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1451362
O Brasil presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, e governado por unha coalición dirixida polo Partido dos Traballhadores, atrai a atención de todos. Tanto pola sua politica interna, combinando a seriedade e intelixencia na administración do Estado, o impulso ao desenvolvimento económico, a proteción da sua natureza extraordinaria e os programas de inclusión e proteción social e contra a marxinación, como pola sua surpreendente presenza exterior, tanto en Latinoamérica como nos demais continentes. Brasil é considerado como un dos componentes privilexiados dun mundo que for alleo ao hexemonismo político e económico, sendo o seu Presidente a voz máis saliente entre governantes que loitan contra a pobreza. Contando con instituicións inequívocamente democráticas -malia a sua dimensión xeográfica e a complexidade da sua estrutura federal- pratica unha política internacional singularmente independente. Mantén unha relación excelente coa Unión Europea, ten un bó entendimento cos EEUU, facéndose respeitar na relación privilexiada cos Estados de Latinoamérica, incluida Cuba e desde logo Venezuela, e cos paises africanos, conservando toda a sua liberdade para tratar con paises como Iran ou para compor con China, a Federación Rusa e a India o rostro das potencias emerxentes.
Criticado e visto con desconfianza ao principio do primeiro mandato presidencial de Lula, Brasil recebe neste momento unha atención especial e positiva de medios de comunicación -de Le Monde a The Economist e de The New York Times a El País-, que se definen por liñas editoriais non concordantes co pensamento político do antigo operario e sindicalista de São Paulo. Relatando o seu despegue político e económico, distíngueno de potencias consolidadas como China, India ou Rusia, quer polo carácter do seu sistema democrático, quer pola carencia de problemas nacionais internos ou pola diversidade da súa estrutura económica, facendo fincapé neste caso na política social e ambiental prevista a propósito da imensa riqueza petrolífera encontrada frente ás súas costas. Atribuíronlle un papel central na resolución na cimeira de Copenhaguen sobre o cambio climático, considerando que ía cumprir unha función de ponte entre os Estados industrializados e os paises en desenvolvimento, intervindo decisivamente en problemas centrais como a redución da emisão de gases de efeito invernadeiro, a axuda financiera aos paises menos desenvolvidos ou pobres, a extensión do protocolo de Kioto a novos paises ou a conservación das florestas tropicais, cooperando coas posicións da Unión Europea e dos paises menos desenvolvimos e superando as dificuldades colocadas por EEUU e China.
Sen prexuizo da importancia política, social e cultural de todos os demais Estados do subcontinente, Brasil supón entre eles a referencia máis destacada, defendendo a unidade e a independencia de todos. Con perto de 200 millóns de habitantes, converte ao portugués na lingua máis falada en América do Sur, negando a identificación exclusivista e interesada do subcontinente co castelám e o hispanismo.
Os brasileiros teñen á lingua chegada de Portugal como o fundamento central do seu carácter nacional. Nós podemos afirmar que a lingua que falan é a mesma que a galega. Malia as diferenzas e os matices, tan galego é o portugués do Brasil como castelán o español de México. Para o comprobalo non hai máis que estar en Río ou en Recife e conversar coa xente ou ouvir estes días algún discurso de Lula en Copenhaguen.
Cada vez son máis fortes as voces que en Galiza recoñecen esta realidade afortunada. Non só entre que partillan a idea da converxencia das normas ortográficas oficiais do galego e as do portugués, senón tamén entre os que praticando a norma oficial en Galiza e facendo fincapé nas diferenzas, xa non defenden un propósito diverxente senón o entendimento cos que a través do portugués teñen por sua, alén do Miño e do mar, unha lingua nacida en Galiza.
Non existe nengunha outra nación sen Estado no mundo que depois de ver negada a súa lingua durante séculos a conserve tan viva internamente e a enxergue tan estendida e arrequecida en todos os continentes.
Camilo Nogueira
http://www.vieiros.com/opinions/opinion/1063/brasil-e-nos
Por Alexandre Banhos Campo (*)
1.- Os antecedentes
A língua da Galiza é uma língua que não se acha reduzida ao espaço do território regional da Galiza.
O português nasceu na Galiza, mas esse espaço pouco tem a ver com o território que atualmente usufrui o nome de Galiza, pois essa Galiza histórica e originária entendia-se do mar Cantábrico até o Tejo.
Na Galiza, conhece-se popularmente o português da Galiza como galego por ter continuado a Galiza espanhola usufruindo em exclusiva o nome. Quando a língua da Galiza se incorporou a universidade foi designado como idioma galego-português. A Academia Galega da Língua Portuguesa chama-lhe com precisão português da Galiza.
A parte da Galiza que continuará usufruindo o nome, perde a sua real independência na batalha de Toro, de 1 de Março de 1479, que supõe a renúncia da incorporação à coroa de Afonso V, de toda a Galiza, e o começo do processo que o cronista de Castela Zurita, chamou de doma e castração do reino da Galiza.
O processo de doma foi determinante do estado em que cairia o português da Galiza.
2.- A unidade da língua a norte e sul é uma certeza da ciência linguística
Toda a lingüística mundial, excepção dos trabalhos posteriores ao ano 70 no estado espanhol, afirma a unidade do romance ocidental peninsular.
Com certeza que o português da Galiza, desde 1500 sofreu um processo de castelhanização, mas tamém desde o século XV estivo incorporando termos novos que iam aparecendo ao sul do rio Minho.
Além das dificuldades na prática do uso da escrita (ortografia) comum da nossa língua, forma parte do pensamento cultural e político da tradição galeguista, a afirmação de ser a mesma língua o português da Galiza e o português de Portugal… e o português do Brasil.
O franquismo liquidou a elite galeguista com a morte e o exílio e não só perseguiu o português da Galiza, senão que também tutelou o seu uso, dentro das várias formas de controlo do regime, sempre amparou uma visão do português da Galiza como um galego regional e espanhol. É dizer, a ditadura vai supor a ruptura da tradição galeguista, de tal jeito, que as novas gerações a aparecerem nos anos 60 do século passado, são desconhecedoras dessa tradição.
Na década dos anos 1970, na que as elites já alviscavam a pronta mudança, o sistema universitário espanhol enxerga de maneira radical (ILG) a afirmação ideológica e «politicamente correta» no contexto espanhol, que é apresentada como científica, da natureza distinta das línguas galega e português.
A morte do ditador, e o começo da transição democrática vão supor a incorporação parcial do português da Galiza ao sistema educativo sob uma perspectiva «isolacionista».
3.- Os resultados do modelo «normalizador»
Em 1980, 84 per cento dos galegos viviam no português da Galiza. 29 anos depois, o galego é a língua habitual de 54 por cento. Porém há que ter em conta a pirâmide de população da Galiza com forte envelhecimento, o que nos da os seguintes dados: só é a língua habitual de 34 per cento dos menores de 30 anos; só é a língua habitual de 20 per cento dos menores de 20 anos; só é a língua habitual de 5 per cento dos menores de 10 anos. O processo de substituição linguística na Galiza acelerou-se nos últimos anos
4.- Desconstruindo o modelo da Galiza (dominada)
Paralelamente a este processo, existe na Galiza um movimento da sociedade civil de grande importância conhecido por reintegracionismo, – reintegrarmo-nos no português-. No modelo galego estupefaciente de substituição, aparentemente dedicam-se muitos recursos nisso tão difuso da proteção do galego.
O modelo reintegracionista, na sua prática de intervenção social e lingüística, tem que desconstruir o modelo social em vigor, como única maneira da sua superação e de colocarmos raízes sólidas para um projeto de futuro da Galiza na sua língua nacional, o português da Galiza.
5.- Os problemas que se enfrentam
- A passividade e permeabilidade ante o modelo castelhanófilo de normalização do português de Galiza.
- O desconhecimento da língua nacional da Galiza como língua plena para estarmos no mundo, e a utilização dela mui hibridizada polo castelhano, verdadeira norma de correção do galego, secundarizado e dependente.
- A não separação do modelo galego do modelo castelhano
- A interiorização constante do castelhano na Galiza como língua normal dos galegos
- O problema de se estar fazendo castelhano em galego.
- A ruptura na transmissão inter-geracional.
- O subtil racismo anti-português
- O papel de centralidade cultural e ideológico que ocupa o castelhano.
O Português da Galiza
A língua da Galiza, o português, é uma língua perfeitamente normalizada no mundo, que tem a pluralidade diatópica própria das línguas estendidas por todos os continentes.
Mas no estado espanhol dá-se uma situação de reconhecimento lingüístico assimétrico no que uma das línguas tem carácter oficial pleno e a outra(s) co-oficial, e essa co-oficialidade é regulada mentres não existe nenhuma regulação dos usos do castelhano nos territórios de língua própria e originária. Aliás, esse seria o primeiro plano de qualquer política de sucesso normalizador dos usos das línguas.
O século XXI é o do trunfo na rua de forma bastante massiva do reintegracionismo. Em grande medida isso é pola sensação de derrota e de batalha perdida pola língua, que transparecem e expõem já com toda naturalidade os defensores do modelo filocastelhanista (isolacionismo).
http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1631:a-situacao-do-portugues-na-galiza&catid=3:opiniom&Itemid=80&Itemid=36
Lopes Facal: «O português nom é mais que o galego útil e internacional»
O programa ‘Bos días’ da TVG acolheu um debate sobre o ensino do português na Galiza no que participárom Samuel Rego (Director do Instituto Camões na Galiza), Felipe Presa (Presidente do colectivo Docentes de Português na Galiza) e Joám Lopes Facal, que falou em qualidade de aluno de português da escola oficial de idiomas de Santiago de Compostela.
O debate, conduzido por Carlos Fernández Amado, deitou luz a respeito das possibilidades de aproximaçom lingüística e dos benefícios que a aprendizagem do padrom internacional da nossa língua poderia ter para a comunidade galega. O apresentador explicou assim que, embora todos os governos galegos tenham manifestado umha vontade de aproximaçom à língua portuguesa, nengum tomou nunca qualquer medida para concretizar a ideia.
Nesta linha, Lopes Facal explicou que «o português nom é mais que o galego útil e internacional. Nom há outra maneira de que a nossa língua tenha umha sobrevivência se nós nom nos aproximamos do mundo que nós é próprio, ao mundo do lusismo, ao mundo da fala do português, que é umha variante pura e simples do galego, e isto é cada vez mais compreendido».
Samuel Rego, na sua vez, analisou o ‘factor vizinhança’, com o que explicou a visom frequente de que o português é umha língua para se comunicar com os vizinhos, e nom para falar com 220 milhons de pessoas em todo o mundo. Rego, explicou também que a porta de uniom com Ásia, África ou América que representa o português, é o que fai que esta língua cresça muito significativamente em países da Europa do leste, ou na Estremadura espanhola. Ainda, Rego colocou um dado tirado dos informes das Naçons Unidas no que se determinou que dentro de 15 anos o português terá um número maior de falantes do que o francês, o alemám e o italiano juntos.
Felipe Presa, do colectivo de Docentes de português na Galiza, explicou que o ensino secundário é a porta e o alvo para a aproximaçom da língua, destacando que o português encaixa perfeitamente no modelo de ensino actual como segunda língua estrangeira.
O programa foi acompanhado com mensagens de telemóvel em directo dos telespectadores, que se mostrárom favoráveis à proposta de aproximaçom lusófona.
Nestes días na cidade portuguesa de Estoril, reúnese a Conferencia Iberoamericana, onde os xefes de Estado e Goberno dos países da América Latina de lingua portuguesa e española e máis Portugal, España e Andorra debaten unha axenda marcada polos temas da innovación e mais o coñecemento que o tema central deste cumio. A Conferencia Iberoamericana ten habitualmente unha importante presenza nos medios de comunicación estatais e galegos e desenrola unha importante tarefa en diversas areas. O seu secretario xeral o hispano-uruguayo Enrique Iglesias, co que coma presidente da Conferencia Eurocentroamericana tiven o placer de manter varias entrevistas para tratar diferentes cuestións relacionadas con Centroamerica e a Unión Europea, é un home que se caracteriza pola capacidade de diálogo e consenso e a súa ampla experiencia no eido financeiro, posto que foi presidente do Banco Interamericano de Desenrolo durante máis de unha década.
Pero existe outra institución da que nos nosos medios, salvo honrosas excepcións, non se atopan moitas novas. Estamos a falar da Comunidade de Países de Lingua Portuguesa, a CPLP, creada no 1996 nun cumio especial en Lisboa polos estados de Portugal, Brasil, Angola, Mozambique, Guinea Bissau, Cabo Verde, Sao Tome e Príncipe e a que se incorporaría tras a independencia Timor Leste.
Este organismo ten un amplo feixe de actividades e iniciativas artelladas tanto no eido da concertación política-diplomática, a cooperación ao desenvolvemento no sector do ensino e a saúde, e medidas de promoción da lingua portuguesa no escenario e as institucións internacionais entre outros temas. O seu secretario xeral actual é un antigo ministro de Guinea-Bissau, Domingo Simoes Pereira, e de feito estará tamén en Estoril posto que ao igual que o Alto Comisario das Nacións Unidas para os Refugiados, o ex primeiro ministro socialista de Portugal Antonio Guterres atopase invitado especialmente polo Goberno portugués, o anfitrión do cumio.
Galicia debería reflexionar, no marco da súa acción exterior, sobre a necesidade de estar presente con unha voz propia nos foros internacionais para defender os nosos intereses coma país e os das nosas empresas así como espallar a nosa cultura. Neste senso a nosa presenza na CPLP considero que e unha iniciativa que deberiamos adoptar diante o próximo cumio que estas nacións celebraran en Luanda, Angola, no 2010. Existe nos estatutos da CPLP mecanismos xurídicos que posibilitarían esta incorporación coma observador nun primeiro intre e que sen dúbida sería excelentemente acollida polos gobernos membros desta comunidade. Temos uns lazos lingüísticos e culturais que xustifican amplamente a nosa incorporación e ademais uns crecentes intereses económicos e comerciais na maioría destes países, facilitados polo idioma galego que unha vez máis amosa ser un plus e non un hándicap na nosa presenza exterior. As nosas comunidades de emigrantes no Brasil, os nosos intereses pesqueiros na Angola, a nosa cooperación o desenrolo nos países da África portuguesa e no Timor Leste (que experimentou un amplo avance en boa medida polo incansable traballo de Fabiola Sotelo, a antiga directora xeral de Cooperación Internacional da Xunta de Galicia), as nosas relacións culturais con todos estes países aínda por debaixo da súa enorme potencialidade, etc.
Temos como país que facer valer as nosas vantaxes estratéxicas e promover a presenza das nosas empresas e da nosa cultura no exterior. Nesta dirección teremos que facer un importante esforzo como país nos vindeiros anos para incrementar os nosos lazos co exterior e afianzar a nosa presenza. Sen dubida o espazo que conforman os máis de 230 millóns de persoas que compoñen os países da Comunidade de Países de Lingua Portuguesa debería ser un dos eixos da nosa acción exterior dende Galicia.
David Balsa
http://www.xornal.com/opinions/2009/11/30/Opinion/paises-lingua-portuguesa/2009113019580369290.html
A axencia europea das linguas minorizadas da UE informa de que “as medidas adoptadas contra a lingua galega supoñen unha vulneración de tratados internacionais sobre os dereitos lingüísticos”
A European Bureau for Lesser Ussed Lenguages (EBLUL, Axencia Europea das Linguas Minorizadas) emitiu unha resolución na que reprende a política lingüística emprendida polo Executivo de Alberto Núñez Feijóo, tras a reunión de que este organismo celebrou onte en Barcelona.
O texto “informa” á Xunta de Galicia de que “as súas medidas adoptadas contra a lingua galega desde o pasado mes de abril supoñen unha vulneración de tratados internacionais sobre dereitos lingüísticos subscritos polo Estado español” e contra a Carta Europea de Linguas Rexionais e Minorizadas.
A EBLUL afirma na súa resolución que “resulta de especial gravidade” que “non só non se puxese en marcha ningunha das medidas recomendadas”, senón “que se desmantelasen algúns dos proxectos máis aplaudidos polo Consello de Europa”, entre os que se cita á antiga Rede Galega de Escolas Infantís, Galescolas, “a única rede de ensino que contemplaba con normalidade o uso do galego”.
O documento “anima” ao Goberno galego a “que desenvolva unha política lingüística de extensión social da lingua propia de Galicia”, á vez que lle advirte que “de continuar a súa política de desprotección” trasladarase a situación aos diferentes foros internacionais onde a EBLUL atópase presente.
Esta entidade da UE está promovida polo Parlamento Europeo, e posúe rango de entidade consultiva ante o Consello de Europa e a Organización das Nacións Unidas (ONU).
A emigração galega ao Brasil foi a terceira mais importante em América. Porém, não há demasiados estudos sobre ela.
A tese de Antom Corbacho, “A aculturação dos galegos do Brasil: o vazio galeguista”, mostra novos dados sobre a atividade de destacados independentistas galegos no Brasil, como Pepe Velo ou Álvaro de las Casas.
Falamos com ele, além destas duas personagens, da imagem que dos galegos têm no Brasil, da máfia galega dos anos 50 em Rio de Janeiro e da identidade linguística dos galegos no Brasil.
Assim como os militantes independentistas da Sociedade Nazonalista Pondal reconheceram que o espanhol da Argentina funcionou como um “pólo opositor” para conscientalizarem-se da sua identidade como galegos, os galegos do Brasil não encontravam este pólo opositor por nenhum lado (a língua era demasiado parecida) mas tampouco eram capazes de integrá-lo sob o conceito de “lusofonia”. “A mim, o que me pareceu mais alucinante é que –indica Corbacho–, na escassa imprensa regionalista/ galeguista do Brasil, das três primeiras décadas do séc. XX, se recorresse ao galego das Irmandades. Esses escassos regionalistas/ galeguistas (galegos-cariocas) não assumiam a lusofonia. Ora, custava-lhes horrores escrever no galego das Irmandades; chegavam a escrever um galego quase ininteligível.
” Uma das linhas centrais da tua tese é que, a diferença do que se passou noutros lugares, no Brasil o colectivo galego mais “intelectual” apenas tivo peso. A que se deveu isto?
Na tese diferencio entre galegos imigrantes e não-imigrantes. Ao Brasil chegaram, comparativamente, poucos não-imigrantes. O imigrante é mão-de-obra que, como tal, procura fazer fortuna encarregando-se das profissões que os nacionais deixam para a sua ocupação por parte de trabalhadores estrangeiros. E no Brasil essa mão-de-obra galega, embora fosse majoritariamente rural, pretendeu a fortuna nas cidades, em profissões urbanas que demandavam escassa qualificação técnica. Tratou-se de uma mão-de-obra que chegou ao Brasil na terceira classe dos transatlânticos. O Estado Novo brasileiro não permitiu a chegada de exilados galegos no pós-guerra espanhol e foram poucos os não-imigrantes – artistas, escritores, intelectuais – que escolheram o Brasil como destino. E esses poucos se inseriram no campo da cultura brasileiro, com vistas a serem reconhecidos pela sociedade local, não pelos seus compatriotas imigrantes, cujas inquietudes não costumaram coincidir com os intuitos desses intelectuais.
Como reagiam os emigrantes galegos ao chegarem ao Brasil e ouvirem a sua língua com esse sotaque “exótico”?
Para que isso acontecesse tinha que haver consciência linguística. Isto é, o imigrante galego devia, em primeiro lugar, reconhecer como uma língua o que ele falava, o qual não sempre aconteceu, e tinha que ter a disposição e a capacidade para comparar falas e apreciar que elas se correspondiam a variedades de uma língua comum. E isto também não aconteceu sempre. Isto é, sucedia que a conclusão contrastiva à qual se chegava desde o preconceito linguístico era a de que as falam correspondiam a socioletos não vinculados. Por parte dos brasileiros, e cumpre reparar em quais eram os interlocutores desses imigrantes galegos, a empatia linguística tampouco primou. O galego era mais um gringo que não falava brasileiro nem português de Portugal, era alguém que se expressava de forma enrolada, e não como “a gente”, era o outro a se expressar de uma outra forma, que o aborígine não reconhecia como parelha à própria. Nas entrevistas que fiz deparei-me com imigrantes galegos que sim perceberam a comunhão linguística com os nativos, mas também houve galego-falantes que asseveraram que a língua do Brasil foi mais um empecilho que tiveram que superar; ou seja, o brasileiro, para eles, teve que ser aprendido como uma língua estrangeira para progredirem no processo da sua integração no país.
E por outra banda, que imagem tinham os brasileiros do colectivo galego?
As representações sobre os galegos no Brasil dependem do estado da federação ao qual nos refiramos. Alguns imigrantes toparam imagens sobre os galegos que não tinham a ver com os galegos da Galiza. O galego era e é a pessoa loira, ou o português, ou, em algumas regiões do país, qualquer estrangeiro, sendo, assim, o qualificativo galego sinônimo de gringo. Quer dizer, havia e há imagens sobre os galegos com independência dos imigrantes galegos da Galiza. Creio que o único município em que a primeira denotação que tem o termo galego é a de “galego da Galiza” é Salvador, no Estado de Bahia. Nos documentos oficiais e nos ensaios que analisei, emitidos/ publicados nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro entre as décadas de 1890 e 1960, o galego, e o espanhol em geral, junto ao português, é apresentado como o trabalhador estrangeiro ideal, por ele ser ordeiro, esforçado e de fácil assimilação, ou seja o galego foi considerado como o estrangeiro conveniente que, caso ficasse no país, faria o possível para que a sua descendência fosse educada para se sentir plenamente brasileira. E esse foi um objetivo da administração pública brasileira. Não interessava só aproveitar a mão-de-obra estrangeira; queria-se que ele permanecesse no país, para contribuir ao processo de colonização, povoando as cidades e os sertões, aumentando a população e branqueando a nação mediante as uniões inter-étnicas. No entanto, nas décadas de 1910 e 1920, nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, dos operários galegos, devido à sua militância no anarquismo e no sindicalismo revolucionário, também se fez a imagem de estrangeiro encrenqueiro, mas essa imagem dissolveu-se durante o Estado Novo por meio da bem-sucedida radical repressão sobre as associações livres de trabalhadores.
Segundo conta Jorge Díaz no seu último romance parece ser que nos anos 50 os galegos conformavam a máfia da prostituição em Rio. Em que maneira afectou isso?
O romance ao qual te referes, Los números del elefante, oferece um argumento fictício ambientado em um panorama social verídico. Esse romance contém os frutos de uma pesquisa séria e aprofundada acerca da circunstância do Distrito Federal/ Estado da Guanabara na década de 1950. E aponta algo que realmente aconteceu: um âmbito para o emprego da mão-de-obra camponesa não qualificada para profissões urbanas que exigiam especialização era o trabalho de bicheiro – aquele encarregado do jogo do bicho, uma loteria ilegal – e o de proxeneta, o qual só requeria que o candidato ao enriquecimento rápido, além de ser disciplinado perante a hierarquia da máfia, tivesse a gana e a esperteza e, é claro, a falta de escrúpulos. Houve mesmo imigrantes galegos envolvidos com esses negócios marginais. É preciso frisar, no entanto, que a atuação profissional dos galegos, imigrantes e não-imigrantes, na cidade do Rio foi bastante diversificada, embora destacassem por terem um grande controle, entre a década de 1950 e a década de 1990, da hotelaria, das boates e dos bares.
Figuras do nacionalismo galego no Brasil: José Velos Mosqueira e Álvaro de las Casas Investigaste, aliás, Álvaro de las Casas, uma das personagens mais controvertidas do nacionalismo da época. Que dados novos achega a tua investigação sobre o seu passo polo Brasil à sua figura?
Na tese comentei as obras publicadas por Álvaro de las Casas durante os dois anos que permaneceu no Brasil. Ele chegou ao Brasil sentindo-se exilado, mas, aqui, o governo não o assumiu como tal, senão como mais um estrangeiro a quem se lhe dava o visto temporário. Constatei a rápida inserção de Las Casas entre a intelectualidade carioca. No Rio de Janeiro, dedicou-se à docência, a ministrar palestras e a colaborar com a Editora A Noite. Aos poucos meses de se instalar na, então, Capital Federal, publicou o ensaio Espanha, gênese de uma revolução. Logo publicou um outro ensaio, Angústia das nossas horas, sobre a circunstância pré-bélica européia e, depois, um romance ambientado na Galiza, Os dois, e, antes de partir para Buenos Aires, um livro com impressões de viagens alternativas – exóticas – pelo país, intitulado Na labareda dos trópicos. Esse corpus significa, é óbvio, por um lado, que Las Casas era valorizado, inclusive antes da sua chegada ao país, por agentes da cultura que lhe facilitaram a obtenção do emprego que ele desejava, isto é, a de intelectual ensaísta, e, por outro, que ele contou com a liberdade suficiente para, a pesar de ser estrangeiro, divulgar por escrito a sua visão acerca da política das relações internacionais. Espanha, gênese de uma revolução é um ensaio como acredito se possa qualificar como didático, pois almejava explicar aos leitores brasileiros as causas da Guerra Civil espanhola. Nessa obra expressa a sua decepção com os governos da II República, por eles não terem sabido empreender as reformas necessárias – autonômica, agrária, educacional, religiosa, militar – e expõe o seu vaticínio sobre o desenlace da guerra com dois anos de antecedência do seu final. E acerta. Nessa obra ele não renuncia ao galeguismo, mas se apresenta como alguém que acreditava que a solução para os problemas da Espanha só caberia a um governo autoritário. Surpreende o romance Os dois, pois parece pensado para leitores galegos. Essa narrativa, cujo argumento se desenvolve em uma atmosfera fidalga, contém um condensado repertório dos traços diferencias da cultura e da identidade galegas. Por sua vez, Na labareda dos trópicos apresenta os apontamentos de viagens por destinos poço frequentados que Las Casas qualificava como de grande valor turístico. Quase simultaneamente, outro galego, José Casais, contemporâneo de Las Casas, publicou em espanhol um livro – Un turista en el Brasil – com o mesmo propósito. A crítica literária brasileira elogiou os produtos de Las Casas; ele, porém, embora militasse no Brasil como galego, não se inseriu nas associações galegas existentes, sendo a sua trajetória a de um autor galego reconhecido por intelectuais brasileiros, quem, no entanto, agiu isoladamente a respeito dos seus patrícios.
Outra personagem muito importante no nacionalismo galego, José Velo, também estivo a morar no Brasil após a fim do sequestro do Santa Maria. Como foi a sua estadia lá?
José Velo, a diferença de Álvaro de las Casas, sim era um asilado para o governo brasileiro, um estatuto que, por si, limitava as possibilidades de atuação política de Velo no Estado de São Paulo, onde ele se assentou. Velo orientou as suas atividades ao campo cultural: abriu uma livraria – a Livraria Nós –, criou uma editora – Galiza Ceibe – que lançou a primeira edição brasileira de uma antologia de poemas de Rosalia, etc., mas, ao igual que Las Casas, não se articulou com as associações galegas. De fato, Velo, em São Paulo, em contraste com o que ele promovera em Caracas, parece alguém que, sem renunciar à sua ideologia e à sua utopia, bateu em retirada, concentrando-se em um pequeno círculo de amigos brasileiros e espanhóis, como se tivesse reconhecido que as condições para a sua intervenção no meio social galego na cidade de São Paulo eram desalentadoras.
Publicado em
http://www.galizalivre.org/index.php?option=com_content&task=view&id=2223&Itemid=1
O portal Galiza Livre entrevista ao investigador e documentalista audiovisual Xan Leira autor de “Galegos em Lisboa, a história jamais contada”.
“As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega”
Xan Leira é um cineasta e investigador galego nado na quinta província, onde começou a trabalhar no mundo audiovisual. Tem realizado numerosos documentários sobre a história da Galiza, como “Castelao e os irmãos da liberdade”, ou “Crónicas da repressão lingüística”. Nesta ocasião falamos com ele do seu último trabalho, “Galegos em Lisboa, a história jamais contada”.
A sua última investigação, se não me equivoco, é um livro, uma exposição e um documentário sobre a presença galega em Lisboa. As migrações a Portugal foram quantitativamente das mais numerosas das saídas da Galiza (no s.XVIII havia mais de 40.000 galegos em Lisboa). Pensa que isto é ainda um dado desconhecido e pouco estudado?
Sim, efeitivamente. É um trabalho de investigação que com o apoio do Professor Domingo Lopo, da USC, desenvolvimos durante os anos 2006-2008 no nosso próprio território e na cidade de Lisboa. Fruto deste enorme trabalho de campo recuperamos aproximadamente 150 história de vidas de pessoas protagonistas deste fenómeno migratório, que não duvido em qualificar como “a mãe de todas as nossas emigrações”.
As ensinanças históricas da emigração galega a Lisboa, foram as que logo serviram para dar o salto ao continente americano. A emigração galega a Lisboa é fruto de todo um processo histórico que começa com a própria migração da Galiza do Sul que dá nascimento a Portugal. Mas se não queremos entrar nesses tempos, temos que dizer que a emigração da mão-de-obra galega começa antes do próprio descobrimento de América, como o indicam documentos da época, e consolida-se a partir do descobrimento do novo continente e as descobertas de novas rotas, o que convertem a Lisboa numa cidade aberta ao mundo, rica, enormemente rica e necessitada de mão-de-obra não escrava; já que os seus próprio trabalhadores –maioritariamente os nossos vizinhos beirões e minhotos–, marcharam às novas terras de conquista e colonização. Polo tanto, temos que dizer que a emigração galega a Lisboa, a grande capital da península naquelas datas, resultava próxima por muitos motivos, entre eles e não o menos importante a língua comum. Ora bem, os documentos da época e as crónicas dos viageiros estrangeiros que chegavam a Lisboa falam da enorme presença dos nossos naturais na cidade alfasina.
Não há estatísticas oficiais, até avançado o século XIX, mais a literatura e a documentação consultada sinala aos galegos como o colectivo estrangeiro mais numeroso dos que trabalhavam em Lisboa. A presença galega incrementou-se a partir do terremoto de 1755. Porque? O devastador terremoto de 1755 foi acompanhado dum tsunami que destruiu praticamente a cidade de Lisboa. Como consequência desta tragédia morreram muitos portugueses, mais, também, muitos galegos que lá moravam. O porquê há que buscá-lo nas necessidades construtivas que tiveram os engenheiros da coroa para resolverem definitivamente estes acidentes naturais, parece que comuns naquelas épocas. Os engenheiros consultados pola coroa eram de tradição naval e acharam respostas desde a sua experiência na construção naval, com o emprego da madeira. Podemos dizer que a Baixa lisboeta está construída sobre pilotes de madeira, instalados pola mão de obra mais qualificada, numerosa e próxima da época, que nem mais nem menos era a mão-de-obra galega.
Desde esta etapa é que a emigração galega à cidade do Tejo, converte-se num fenómeno de absoluta modernização e criação constante de novos serviços que os galegos davam à cidade de Lisboa. É inumerável a quantidade de ofícios exercidos e inventados polos galegos ao longo dos séculos.
O escritor Rodrigues Migueis escreveu que a Baixa lisboeta era uma espécia de sucursal de Ponte Vedra. Que pegada deixou a emigração galega em Lisboa? Ainda há algum bairro “galego”?
Sim é certo, José Rodrigues Migueis fala da Baixa como uma espécie de sucursal de Ponte Vedra. Mais toda Lisboa –durante estes séculos passados– é uma verdadeira sucursal da Galiza. De todas as províncias galegas emigraram a Lisboa. O que acontece é que com a apertura da emigração galega às américa, são os naturais da atual província de Ponte Vedra e de Ourense, os que pola proximidade e a tradição seguiram emigrando a Lisboa até finais dos anos cinquenta.
As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega. Galiza deixou pegadas em absolutamente todos os âmbitos da realidade material e imaterial lisboeta: na comida, na cultura, na economia, na política, no amor…
Atualmente não há bairros galegos como no passado: a Bica, a Amadora, a Baixa, etc. Os galegos de nascimento que residem em Portugal formam parte natural da própria realidade lisboeta e, dum ou doutro jeito formam parte da sua classe dirigente. Mas caminhar pola Baixa e pola Porta de Santo Antão é caminhar polas entranhas galegas de Lisboa.
Qual foi a importância da emigração galega na política lisboeta?
Uma emigração tão antiga e regular na sua atuação social remata por ter presença absolutamente em todos os âmbitos da vida dum país. A política não pode ser uma exceção. Como tampouco pode sê-lo a criação de sindicatos de operários ou de patronos. Em toda a vida sócio-económica e política de Lisboa, e por tanto de Portugal, houvo e há presença galega. Por citar só alguns: Alfredo Guisado, homem vencelhado à geração Nós e ao republicanismo português; Manuel Durão Clemente, capitão da Revolução dos Cravos, ou os irmãos Portas, dirigentes das antagónicas Bloco de Esquerdas e da CDS-PP, são um pequeno exemplo da importância da emigração galega e dos seus descendentes na história de Portugal.
Heron Moura
O recente acordo ortográfico com os países de língua portuguesa despertou sensações já adormecidas em relação a Portugal. A reforma é percebida como algo que vai aproximar o Brasil do país que nos colonizou; mudanças de ortografia são vistas como um meio de superar o oceano que nos separa (curiosamente, uma mesma sensação não se impõe em relação aos países africanos de fala portuguesa). Há um sentimento disperso de que algo que se perdeu no passado pode de novo ser encontrado – uma identidade luso-brasileira.
Muitas pessoas crêem firmemente que, com o acordo, o português de Portugal vai ficar mais parecido com o português que se fala aqui – como se as letras e os acentos tivessem um estranho poder sobre a articulação das palavras. É um sonho de volta às origens, de recuperação de uma identidade perdida. Perdemos o trema, mas em compensação o nosso pai, Portugal, está mais próximo de nós. Toda essa emoção não revela também o desejo de dominar o nosso pai, controlando a sua forma de falar? Na verdade, a reforma ortográfica é um fato político, e não um acontecimento lingüístico. As diferentes línguas (do Brasil, de Portugal e dos países africanos que falam o português) continuarão seus caminhos distintos. Em especial, o português de Portugal soará cada vez mais estranho para nós, brasileiros. A nossa língua, o português do Brasil, evolui num sentido diferente do português europeu. A gramática deles não é a nossa, o léxico muda muito, a forma de articular as palavras é diferente. Ainda nos compreendemos mutuamente, é claro, mas não é certo que essa inter-comunicação possa durar para sempre.
Temos que aceitar essa perda de identidade; o Brasil é suficientemente adulto para não precisar de pai. Fica o afeto, mas já acabou a identificação. Portugal é um importante aliado político, mas isso basta. Nossa separação de Portugal é intensa, profunda. Por exemplo, a literatura produzida aqui é radicalmente diferente da produzida lá. E isso não apenas em função de valores culturais e estéticos discrepantes. A poesia da língua é diferente. A literatura que se faz lá explora recursos lingüísticos distintos do que exploramos aqui. Quem aprecia a literatura portuguesa o faz percebendo a diferença lingüística da que se faz no Brasil. A poesia da língua é outra. Mas a literatura tem o poder de evocar uma identidade subliminar, secreta. Ao ler uma frase literária de um bom autor português, sentimos saudades de nós mesmos. Lamento que toda essa celeuma em torno da reforma ortográfica não tenha tocado na questão da identidade literária de nossos países.
Nunca nenhum escritor brasileiro jamais poderia ter escrito como Fernando Pessoa. Não por razões espirituais ou culturais, mas simplesmente porque ele utiliza um material (a língua de Portugal!) que não está disponível para os brasileiros, assim como a nossa língua não está ao dispor dos autores portugueses. Vou dar exemplos de prosa dessa poesia da língua que Fernando Pessoa constrói com maestria. Os trechos são do Livro do Desassossego. “Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica”. A poesia da língua aí consiste em o poeta usar, artisticamente, um recurso próprio do português de Portugal: a nominalização de tempos verbais compostos (“o ter chegado tarde para almoçar”), que transforma uma marcação de tempo num substantivo.
O que acontece vira uma coisa, um ser, que afeta a vida do poeta. E também, requinte do português continental, a nominalização de tempos verbais com infinitivo flexionado: “o terem-se acabado os fósforos”. Há toda uma poesia secreta no infinitivo flexionado! Vou agora mostrar um segundo tipo de poesia da língua: “Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas.” Fernando Pessoa usa compulsivamente a estrutura Adjetivo + Substantivo + Adjetivo, como em “a pouca luz fria” e “vago azul branco”. Isso dá um ritmo ligeiramente entorpecente à sua escrita, e o permite trazer à tona o mais imperceptível traço de um adjetivo. É claro que no português do Brasil usamos também a anteposição de adjetivos, com efeitos semânticos importantes (como em “pobre homem” x “homem pobre”), mas nem de longe essa construção é tão comum como no português de Portugal: a tríade “vago”, “azul” e “branco” soa muito bem em Portugal. No Brasil, seria pedante e artificial. Só esse tipo de construção já marca claramente a fala literária de Pessoa (e de todos seus heterônimos!). “Breve sombra escura de uma árvore citadina”. Um último exemplo de construção dessa poesia da língua (mas há vários outros): “Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles”. Ah, como a literatura de Fernando Pessoa é arquitetada sobre esses pronomes anafóricos (“deles”), nessas retomadas de uma palavra anterior, numa circularidade que permite remoer a metafísica de cada coisa, para uma eterna “consciência de mim”. Outra mostra desse vício dos pronomes anafóricos (que retomam uma palavra citada antes): “Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir”.
Que prazer lingüístico tem o poeta de retomar o passado com o pronome oblíquo “o”, ainda que não deseje reviver o passado! Escolhi três tipos de construções que marcam a língua de Fernando Pessoa como uma linguagem diferente da nossa. Nenhum brasileiro escreveria assim, e se o fizesse, soaria extemporâneo. O português de Portugal gera outra poesia da língua, que nos é alheia. No entanto, ao ler o Livro de Desassossego, sobre a vida mesquinha do funcionário Bernardo Soares, herói só em sonho (”Quantos Césares fui, mas não dos reais”), nos apropriamos dessa linguagem estranha como se fosse nossa. A literatura alheia se torna nossa; a vida alheia se funde a nós mesmos. O português de Portugal volta a ser o português de nossa boca. Tudo o que o acordo ortográfico não poderá fazer, é realizável através da literatura. Não é na ortografia que está a vida, mas na fusão de som e sentido. Quando lemos oLivro do Desassossego, temos saudades de nós mesmos. E o Bernardo Soares da Rua dos Douradores está bem aqui, na Mauro Ramos ou na Conselheiro Mafra. Essa mesma melancolia tão distante e tão próxima.
(Publicado no Diário Catarinense, em 7 de fevereiro de 2009).
O rio Verdugo levou por diante três farois e vários muros ao desbordarse em Ponte Caldelas
Entre sexta-feira e no domingo passados, os serviços de urgencias tiverom que realizar case um milheiro de actuações na demarcação de Ponte Vedra derivadas do temporário.
Ponte Caldelas sofreu importantes desfeitas depois de que se desbordou o rio Verdugo à altura do paseio fluvial. Em concretizo, na praia os danos situaram-se no aparcadoiro, onde três farois levaram a pior parte, enquanto que, entre o mercado e o balneário, a força das águas derrubou um muro que fecha uma propriedade privada, ademais de levantar lastros. A isto haveria que somar a tónica geral que deixou o temporal ao seu passo por toda a comarca de Pontevedra, isto é, árvores caídas, ramas arrincadas de raiz e contentores movidos.



