Cordo Boullosa, galego de Caritel, chegou a ser quinta fortuna do mundo
O magnata Manuel Cordo, fundador de Galp, burlou o bloqueio da ONU para facilitar petróleo a Israel na Guerra dos Seis Dias. E donou um palácio aos galegos de Lisboa
O homem que atingiu em Portugal uma cume dos negócios jamais superada -chegou a ser a quinta fortuna do planeta nos anos 60, quando ainda não existia a economia global- era filho de emigrantes galegos e, pese a nascer em Lisboa, se criou até a mocidade na freguesía pontevedresa de Caritel (Ponte Caldelas) porque seus pais não podiam se ganhar o sustento na capital portuguesa.
Nada mais parecido ao sonho americano que a vida de Manuel Cordo Boullosa, que com quinze anos vendia carvão em garrafas de queroseno pelas ruas de Lisboa e três décadas mais tarde tinha fundado uma das maiores companhias petrolíferas (Sonap, que depois converter-se-ia em Galp), com numerosas plantas na África, Ásia e América.
Cordo foi o homem que facilitou o petróleo a Franco na Guerra Civil e também a Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967, para o que teve que burlar o bloqueio de combustível estabelecido pela ONU. Seu poder em Portugal era tal que, em plena ditadura de Caetano, tinha trabalhando para ele em um dos vários bancos que possuía na França ao dirigente socialista exilado Mario Soares -que mais tarde seria presidente da República Portuguesa- e a filha do ditador. Ambos trabalhavam no mesmo departamento do Banco Franco-Português em Paris. Cordo Boullosa foi um dos poucos -por não dizer o único- grandes homens de negócios portugueses que permaneceram incólumes depois da revolução do 25 de abril em 1975.
O magnata de origem galego foi um grande mecenas da cultura portuguesa e possuía no Chiado, na mesma rua que alberga a célebre estátua de Fernando Pessoa, a livraria Bertrand, um estabelecimento de culto em toda a Europa.
Manuel Cordo Boullosa nunca renunciou a sua identidade galega -pese ao pouco glamouroso que tal procedência resultava na señorial metrópole- e, quiçá para o fazer mais evidente, obsequiou em 1988 à colónia galega em Lisboa com um grande palacete que nem sequer o recinto da embaixada espanhola é quemde fazer palidecer.
Esse palácio tem sido desde então a sede do Centro Galego de Lisboa, que agora cumpre cem anos. O potentado português manteve sempre boas relações com persoeiros do galeguismo, especialmente com Valentín Paz Andrade, alma máter da empresa Pescanova, com quem promoveu um frustrado projecto para instalar uma refinaria em Vigo nos anos 60. Conta a lenda que Cordo entrava e saía de Portugal sem passaporte e que costumava impressionar a seus convidados lhes dizendo que não o tinha. “Não o preciso, ninguém mo pede -dizia-. Se realmente tivesse que ter um, sem dúvida seria galego, mas como isso não é possível, pois simplesmente não o tenho”.