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Recepção de Fernández Lores à deputada do Brasil, María del Carmen Fidalgo

janeiro 31, 2016

salvador

Aos seus seis anos, María del Carmen Fidalgo marchou da Canhiça natal rumo a Brasil junto à sua mãe. Naquele país esperava-lhe o seu pai, emigrante como muitos outros galegos. Era o ano 1954. Ninguém podia imaginar que, passado o tempo, esta pontevedresa ia converter numa das personalidades políticas mais conhecidas da cidade que a acolheu no seu dia, Salvador (Bahia)

Agora, como deputada estatal desde 2007 do Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva e a actual presidenta Dilma Rousseff, preside a comissão parlamentar dedicada ao desenvolvimento urbano e acumulou uma grande experiência em assuntos ambientais.

Precisamente, esta última ocupação é a que lhe trouxe nesta sexta-feira a Ponte Vedra. Aproveitando a sua estância na Galiza, onde vivem duas das suas filhas, María del Carmen Fidalgo quis visitar Pontevedra para conhecer a “maravilhosa transformação” que se produziu numa cidade à que “cada vez que venho oferece-me uma mirada completamente diferente e mais agradável para viver”.

De Ponte Vedra, da que destaca os seus espaços de prioridade peonil e onde as pessoas “andam e sentem a cidade”, esta deputada quer extrair ideias para aplicar em Salvador de Bahia, um município de uns 6 milhões de habitantes e um centro histórico reconhecido como Património da Humanidade, ao ser um “magnífico” exemplo da arquitectura colonial brasileira.

No Brasil, assegura, há uma desigualdade social “muito forte” e grandes problemas de segurança e Ponte Vedra é uma amostra, assinalou, de como é possível “fazer uma transformação da cidade e aumentar a segurança das pessoas”.

“Queremos beber das mudanças que se estão fazendo em Ponte Vedra”, explicou María del Carmen Fidalgo, que cursou invitación ao presidente da Câmara, Miguel Anxo Fernández Lores, para que acuda a Salvador a explicar o modelo urbano pontevedrés “e nos fale do que é possível fazer numa cidade”.

POLA UNIÃO: Manifesto em prol de uma candidatura galega de unidade nas Eleiçoes gerais

setembro 20, 2015

Vámonos todos a unir,
matando rencores cegos;
que na unión dos bos galegos
está da patria o porvir!

Curros Enríquez: “Pola unión”

POLA UNIÃO
Dentro de poucos meses, o governo do Partido Popular convocará eleições ao Parlamento Espanhol. Estas eleições vão-se celebrar numa situação marcada por uma das mais profundas crises que atravessaram Europa depois da II Guerra Mundial. No estado espanhol, a crise tem ademais características de seu: unha, na que ecoa o passado, constituída pola corrupção que percorre instituições públicas e privadas; outra, de exigência democrática, fornecida polos movimentos soberanistas, nomeadamente os de Catalunha e Euskadi

Nesta situação, e perante a possível mudança constitucional que nos vindouros tempos se vai levar a cabo, resulta inadiável para o nosso país a consecução duma Candidatura Unitária Galega encaminhada a obtermos um grupo parlamentar que, com personalidade jurídica própria, reivindique para a nossa Terra, com decisão e sem ingerências alheias, o direito a decidir todas as questões que atinjam o seu futuro, que defenda a língua e a identidade dum povo que há quase um milênio gerou uma literatura e uma cultura que assombrou Europa; um GRUPO PARLAMENTAR GALEGO que trabalhe sem acougo na defensa da economia e os recursos produtivos

duma nação que, quando não se põe freio às suas capacidades, chega às mais altas cotas, como demonstram, por pormos só uns casos, os nossos marinheiros a pescar em mares de meio mundo, os nossos e nossas atletas medalhistas olímpicos, as nossas investigadoras e investigadores em universidades dos cinco continentes; um GRUPO PARLAMENTAR GALEGO que persiga garantir os serviços públicos numa sociedade livre, igualitária, justa e democrática, capaz de se relacionar em pé de igualdade com mulheres e homes, povos e nações, culturas e tradições de todo o planeta e respeitosa co meio ambiente. Um GRUPO PARLAMENTAR GALEGO que evite o risco, real, de Galiza ficar atrás e que, em resumo, combata pola nossa dignidade coletiva e polo que ninguém tem pensado regalar-nos, téndomos bem presente que, ao longo da Historia, a unidade foi, é e será a nossa força, a nossa imensa força como povo.

Galiza, a 1 de agosto de 2015

https://polaunion.wordpress.com/

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Mário Nozeda, ‘O Português’: «Falava com os pais para apresentar o português como algo desejável»

dezembro 16, 2014

A defesa do galego e da norma portuguesa trouxe-lhe a repressão da Inspeção, apesar da solidariedade recebida de alunado, pais e mães

Mário Afonso Nozeda Ruitinha

Mário não foi um professor de primário convencional. A sua alcunha O Português, posta na Ilha, onde exerceu a maioria da sua vida laboral, delata-o. Defendeu e lutou pela nossa língua desde as “trincheiras” das aulas durante toda a sua carreira profissional e fê-lo na normativa portuguesa. Dous fatores que lhe causaram a expulsão da docência 9 anos, com o “pretexto” de instigar o confronto social nas aulas. Longe de se render e com o apoio dos pais e dos seus alunos, quando volta continua a ministrar aulas e, com certeza, a criar consciência e orgulho de língua e de país.

Na Ilha já sempre serás “Mário, o português” pela tua defesa da unidade da língua galego-portuguesa. Quem te pôs a alcunha?

Ignoro donde partiu, imagino que foi criação coletiva. Como em todo o país, sobretudo nas sociedades rurais e nomeadamente na beiramar, as alcunhas bem se sabe, são uma maneira essencial de reconhecimento. Em geral toda a gente aceita a sua. Eu aliás fico muito contente pela minha.

Antes de te reformares escreves um livro em português com o teu alunado, Falares da Arouça, onde recolhes “ditos” próprios da Ilha. Donde partiu a ideia?

Olhando o gravíssimo processo de perda cultural da Galiza dos últimos 30 anos, o caso da Ilha foi espetacular. Olha, quando nós chegamos à Arouça no ano 1982–1983, ainda de barco, ouvir espanhol era insólito. Hoje o difícil é ver crianças a viver naturalmente em galego. O povo da Arouça orgulhou-se sempre das suas cousas, mas em certo ponto acho que já aceita resignado esta fatalidade de se negarem a si próprios em bem do ‘progresso’. Sei lá, se calhar com pouco resultado, mas tentei lutar contra o alzheimer programado. Quis avivecer o que nos dá sentido como humanos e como seres sociais, o que nos faz sentir dignos. Foi muito por isto pelo que em 4 anos letivos dedicamos três semanas de atividade as raparigas e rapazes do ciclo superior a fazer um trabalho de pesquisa no ambiente social da Ilha, na recolha de palavras, ditados, expressões, cantigas… É um trabalho incompleto de reconstrução do património, aberto a quem o quiser prosseguir. A publicação do livro foi também uma espécie de testemunho vital da minha passagem pela Ilha e uma maneira de exprimir gratidão a quem me acolheu.

Como consegues ensinar ao longo da tua vida docente em português? Imagino que não isento de entraves…

É uma história longa. O meu primeiro destino foi em lira numa escola unitária do Condado do Minho pouco após a morte de Franco. Eu estava decidido mas cheio de medo. Para além disso não havia materiais. Os amigos presentearam-me O Catón Galego de Ben-Cho-Shey, um método silábico, antes de passar a outros globais dos coletivos de vanguarda que surgiam. Tive confrontos com algum pai porque eram insólitas as aulas em galego, e diziam-me que os meninos iam ficar de burros, porém quando comprovaram que os seus filhos eram dos primeiros em ler e escrever, ganhei prestígio. Ali, no Condado foi quando comecei a ver as enormes similitudes do galego com o português. Pode-se dizer que cheguei ao português por uma evolução natural. Primeiro com a norma AGAL, com o manual do Martinho, mas por um processo de convicção e por simples praticidade vinguei no padrão. O AGAl pode prestar para figurar dentro dos cenáculos intelectuais mas para a prática não serve. A gente o identifica com o português mas não o é: Afasta-nos da nossa gente mas também da lusofonia… é uma opção antieconómica. Portanto ia a Portugal por material pedagógico, contudo também elaborei os meus próprios apontamentos, fiz uma história da nossa língua, fundamental para compreender o porquê da nossa escolha.

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E com a Administração, pais ou os teus colegas, houve polémica também, não é?

Quando estávamos ainda no Condado, em Leirado, também explicava aos alunos história, falava-lhes do binómio Espanha–Galiza… e numa substituição de férias ficaram chocados, o substituto disse que o professor era um terrorista. Chamaram a Inspeção e começaram a recolher assinaturas pelas freguesias para me botar. Na minha ninguém assinou, foi comovente. Na Ilha fui perseguido e acossado persistentemente até acabar em expulsão por 9 anos.

Que aconteceu para a administração tomar essa medida?

O clima foi aquecendo por causa das minhas aulas em português, na escola chegaram a dizer que eu manipulava pais e alunos. Fizeram todo o possível para me botar. Os alunos faziam manifestações em meu favor e mães de outros alunos batiam neles ou não os deixavam ingressar na minha turma. No ano letivo 88–89 chegou-se a construir uma sala de aulas nova e contratar um professor propositadamente nomeado para os pais de alunos da minha turma poderem escolher entre português e espanhol. Uma hipótese nunca vista e ilegal: criei emprego mesmo! Produziu-se uma adesão ao português impensável, houve pais até com filhos em outros professores que escolheram português. Porém aqui a ordem era clara: isso não podia ser. Imagina: pode-se renunciar à Galiza, mesmo é conveniente, mas à Espanha, nunca. Chateados, pais de alunos pró-português decidiram candidatar-se a representantes de pais no Conselho Escolar, e nas eleições mais concorridas ganharam maioria, 3 de 5 representantes. Um bocadinho mais tarde houve um conflito entre um aluno dos mais velhos e um professor, onde chegaram a vias de facto. Culparam-me de criar confronto na escola e Educação expulsou-me.

E que fizeste?

Partir para Ourense, a nossa cidade, com as filhas e a mulher, professora no mesmo centro. Proibiram-me dar aulas e destinaram-me a um Centro de Recursos Didáticos. Aproveitei para fazer licenciatura de História e Geografia na Universidade, por sinal, também em português. Aos 9 anos voltamos para a Ilha, sendo bem advertidos. O inspetor disse entre ameaças que não ia consentir qualquer imposição linguística. Respondi-lhe que a única imposição de sempre era a do espanhol, que ele cumprisse com o seu dever, que eu ia cumprir com o meu.

Davas aulas de espanhol?

Sim, em primário. Não consentia que misturassem: “Nas aulas de espanhol, tudo em espanhol, nada de mixórdias.”

E que há das aulas em galego?

Eu queria que se familiarizassem com o português, mas não que fosse um problema para eles. Vinham de outro professor e depois de eu iam passar a outro que muito provavelmente utilizava a norma ILG. Quando se defronta a realidade e se olham estas distonias, percebe-se que se deve ir com cuidado. Queria que os pais vissem que era uma coisa séria, por isso falava com eles para apresentar o português como desejável, como um valor, não como um problema.

Que achas da situação do galego?

É um decalque do país, a língua está em situação terminal… igual que o país, morre pela assimilação à Espanha. Julgo que este estado de cousas possa ter solução, e esta passa pelo reintegracionismo.

Entrevista publicada originalmente no n.º 139 do Novas da Galiza

2015 Monção e Salvaterra criam terceira eurocidade de Portugal e Galiza

dezembro 10, 2014

A criação da eurocidade Monção/Salvaterra do Miño, a terceira de Portugal e da Galiza, ocorrerá em março de 2015 e o primeiro passo foi dado hoje com a aprovação do protocolo de cooperação pelo município do Alto Minho.

Monção e Salvaterra criam terceira eurocidade do Norte de Portugal e Galiza

 O acordo formal, aprovado por unanimidade em reunião ordinária da Câmara de Monção, será rubricado pelos dois municípios transfronteiriços a 20 de março de 2015, durante as comemorações do aniversário da ponte internacional sobre o Minho que os liga há 20 anos.

“O projeto nasce da necessidade sentida pelos executivos de ambos os concelhos de encontrarem formas de gestão e valorização do território capazes de fixar e atrair população, de criar e consolidar dinâmicas de emprego e, ainda, de garantir a fixação duradoura de investimentos reprodutivos”, lê-se no documento aprovado pela autarquia e a que a agência Lusa teve acesso.

A “melhor forma de alcançar essas metas”, acrescenta o documento, “é através da cooperação estratégica fundamentada em complementaridades, recursos endógenos e numa história de convivência secular, seguindo as orientações da União Europeia e aproveitando os instrumentos que esta instituição põe à disposição da cooperação sustentada”.

O documento carece ainda de aprovação pela Assembleia Municipal.

Já no sábado os dois municípios vão assinar, durante a realização do V Seminário Luso-Galaico, um documento onde estão definidas as principais áreas de cooperação.

Para a autarquia liderada pelo socialista Augusto Domingues trata-se do “primeiro passo” para a concretização desta união, a segunda no distrito de Viana do Castelo, depois de Valença e Tui e, a terceira entre  Portugal e a Galiza, após Chaves e Verim.

“Esta união, interiorizada há muitos anos pelas populações das duas margens, vai permitir reforçar a nossa atividade conjunta e potenciar a partilha de equipamentos como a piscina, a biblioteca e o museu.

De acordo com Augusto Domingues, a criação da eurocidade “possibilitará ainda a candidatura a programas comunitários de apoio para zonas de fronteira, garantindo projetos comuns direcionados para a melhoria da qualidade de vida das pessoas desta região transfronteiriça”.

Potenciar a enologia e a gastronomia locais, e promover o desenvolvimento do turismo, através da criação de rotas turísticas conjuntas, como as rotas fluviais, a ecopista Salvaterra/Monção/Valença e os trilhos pedestres, fomentar intercâmbios culturais e desportivos são também outras das áreas de cooperação.

http://www.noticiasaominuto.com/pais/318581/moncao-e-salvaterra-criam-terceira-eurocidade-do-norte-de-portugal-e-galiza

Luta contra linha de muito alta tensão junta novamente Galiza e Norte de Portugal

dezembro 10, 2014

A manifestação convocada pela Associação de Afetados pela linha de muito alta tensão Fontefría-Portugal, que teve lugar em Santiago de Compostela, sede do Parlamento Galego, juntou população e autarcas de ambos os lados da fronteira.

Aproximadamente 300 pessoas percorreram as ruas do centro de Compostela até à Praça do Obradoiro, sede da presidência do governo Galego.

Empunhando dezenas de bandeiras e cruzes e gritando palavras de ordem como “Não à Alta Tensão” e “Queremos viver na nossa terra”, os manifestantes exigiram a redefinição do traçado da linha de muito alta tensão em Portugal e na Galiza, e mesmo que parte deste seja enterrado.

A porta-voz da Associação de Afetados denunciou que o atual traçado passa por cima de dezenas de casas de diversas localidades da Galiza e Norte de Portugal. “Ninguém quer que um cabo de 4000 KW passe por cima de ninguém. É como ter um micro-ondas sempre ligado por cima das nossas casas”, avançou.

A manifestação contou com o apoio de deputados e dirigentes do Bloque Nacionalista Galego (BNG) e do Bloco de Esquerda.

A linha de muito alta tensão passará por 121 freguesias do Norte de Portugal.

Galiza: Brasil conhece política de fronteira entre Espanha e Portugal

dezembro 4, 2014

Galiza: Brasil conhece política de fronteira entre Espanha e Portugal

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O Ministério brasileiro da Integração Nacional participou em outubro da 1ª Missão Técnica de Cooperação Transfronteiriça realizada no Eixo Atlântico, quando pode conhecer instrumentos de trabalho e integração entre as regiões de Galícia, na Espanha, e Viana do Castelo, em Portugal.

A viagem forneceu subsídios para o programa Faixa de Fronteira, coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Regional. A visita, que durou dois dias, passou pelas áreas de governança, educação, segurança pública e turismo. Além do ministério, a delegação brasileira também contou com representantes da Secretaria Nacional de Segurança Pública, da Frente Nacional de Prefeitos e da Prefeitura de Bagé, Rio Grande do Sul.

A área de fronteira em desenvolvimento no Eixo Atlântico é uma das mais avançadas do mundo: abrange 38 municípios entre Portugal e Espanha, e apresenta integração entre agentes públicos (polícia e bombeiros), intercâmbio entre estudantes, parcerias com o Departamento de Receita Federal e ações integradas de turismo.

“Tivemos a oportunidade de ver policiais de ambos os países trabalhando em um único núcleo”, afirma a secretária de Desenvolvimento Regional, Adriana Alves. “A atuação lado a lado favorece a troca de informações e a celeridade na análise dos processos.”

A secretaria tem atuado para implantar projetos de integração na região fronteiriça nacional. “Vamos construir um centro de integração na faixa de fronteira, onde jovens estudantes poderão participar de projetos de intercâmbio; criar um fórum transatlântico, que auxilie nos projetos de inovação e avanços comerciais; atuar na integração das polícias, o que irá favorecer a redução da criminalidade nessas regiões; além de estabelecer uma rota turística integrada.”

Segundo ela, está sendo discutido um projeto piloto que deve ser implementado em Bagé envolvendo cidades do Uruguai e da Argentina. “A ideia é criar uma estrutura similar a do Eixo Atlântico, além de instituir um Fórum de Cooperação Transfronteiriça, que vai se reunir uma vez por ano para impulsionar o debate político, e um programa de atuação em matéria de desenvolvimento urbano e regional em diferentes âmbitos, como segurança, turismo, produção, entre outros”, explica.

“O intercâmbio de estagiários, por períodos entre nove a 12 meses, também é planejado, para que completem sua formação com conhecimentos práticos sobre cooperação territorial.”

Galiza
Na eurorregião vivem 6,5 milhões de pessoas, as duas economias representam um produto interno bruto de 100.000 milhões de euros, mais do que vários estados europeus.

Segundo o eurodeputado socialista espanhol José Blanco Lopez a interdependência das economias galega e do Norte de Portugal é irreversível, o que considerou uma vantagem para a competitividade da eurorregião. Segundo ele, a “forte complementaridade” das duas regiões constitui também um estímulo para o reforço das relações econômicas e sociais.

http://www.mundolusiada.com.br/acontece/galiza-brasil-conhece-politica-de-fronteira-entre-espanha-e-portugal/

Bruno Portela; Galicia e Brasil; Mesmo com toda a crise, prefiro viver na Galicia

novembro 26, 2014

Bruno Portela

Bruno Portela

Ator e Diretor na Companhia Internacional de Teatro Arte Livre

Ainda que eu já tenha percebido há algum tempo as inúmeras vantagens de viver aqui, venho, desde que cheguei a primeira vez de mala e cuia do Rio de Janeiro observando, com olhar crítico, minhas duas realidades: Galicia e Brasil. Sei que é uma comparação injusta se levarmos em consideração fatores geográficos, demográficos e econômicos. O Brasil tem 202 milhões de habitantes, uma extensão territorial de 8 515 767,049 km² e um salário mínimo de R$ 720. Já na Galicia somos um pouco menores: 2 762 198 habitantes, 29 574 km² de território e um salário mínimo de 750€. Muito embora eu pudesse comparar o Brasil à Espanha e buscar uma maior aproximação. Mas, para este artigo, já me bastará, de sobra, a Galicia.

Admito, e sei, que seria muita estupidez da minha parte fazer uma comparação a partir desses dados que já falam por si…Será? Enfim. Não se trata de uma competição ou ranking dos melhores lugares para se viver, que é típico desses sites de estilo de vida. Está claro que o melhor lugar para viver é aquele que você se sente bem e ponto final.

“Aqui não é o país das maravilhas. Mas, tampouco, te roubam ou te assassinam numa esquina porque você usa joias, relógio ou está bem vestido”.

Mas a minha comparação é direcionada em aspectos específicos, que no geral resultam em grandes benefícios para o país e, sobretudo, para o cidadão enquanto ser pensante, que cumpre suas obrigações e sabe exigir os seus direitos. Estou falando do galego, na Galicia.

Inicio com o que me chama mais atenção aqui e acho que para qualquer um que chega do Brasil: o poder de consumo. Um cidadão galego, independentemente de sua classe social ou financeira, tem acesso irrestrito aos bens de consumo. Ele vai do ovo ao camarão e do suco de laranja a um bom vinho com a mesma naturalidade do falar. Passa fome quem quer. Comida farta na hora do almoço: 1º prato, 2º prato, pão, bebida, sobremesa e café. Tudo pelo mesmo preço da comida parca que colocamos no prato num restaurante self-service de Ipanema. Claro que pão, bebida, sobremesa e café não estão incluídos em Ipanema.

Em época de “rebaixas”, compra-se roupa a 1€. Uma verdadeira loucura. Sacrificar-se em inúmeras prestações para comprar um sapato? Impensável. A forma parcelada de comprar e pagar em inúmeras vezes, ludibria somente o consumidor brasileiro que paga altos preços para ter acesso a determinados bens. Caso contrário, morreria seco. Exemplo importante, porém não fundamental, é o preço do iPhone 6 que aqui na Espanha custa 699€ (R$ 2.100) e no Brasil pode chegar a R$ 4,399,00 (1.466€).

Tampouco passa pela cabeça de um galego pagar o valor de seu salário mínimo para assistir um show internacional, ou desembolsar R$ 15,00 (aprox. 5,00€) para comer um bolinho de bacalhau, sentando num bar tomando uma cerveja. Petiscos na Galicia é cortesia da casa e confesso que acabei ficando mal acostumado (risos).

Ando pelas ruas e percebo a civilidade e a boa educação emanando das pessoas. Sujeira na rua? Só aquela folha da árvore que acabou de cair e que logo será retirada. Esqueceu a porta do seu carro aberta? Não se preocupe, ele estará lá quando você voltar. Vem vindo alguém em sua direção, numa rua escura, às 3h30 da manhã? Provavelmente irá te cumprimentar. Faixa de pedestre? Sim! O pedestre usa e é respeitado. Não! Aqui não é o país das maravilhas. Mas, tampouco, te roubam ou te assassinam numa esquina porque você usa joias, relógio ou está bem vestido.

Ouço dizer que a Europa está em crise. A Espanha não é mais a mesma. A Galicia está um caos. Realmente. Observando o estilo de vida que os galegos estão acostumados a levar, com o que vejo hoje, digamos que a crise aqui está bem forte. Semelhante aos primeiros dias do mês de pagamento no Brasil, quando você passa em frente ao supermercado ou passeia um sábado à noite no shopping.

Confesso que foi me dando uma certa tristeza à medida em que fui escrevendo este artigo, porque sei do potencial do Brasil e de suas inúmeras riquezas e possibilidades. Sei, também, que tudo que foi descrito aqui poderia acontecer no Brasil tranquilamente. Não é impossível. Mas atualmente está sendo. O Brasil não é um país ruim. Ele ainda não foi realmente descoberto e, por isso, é mal aproveitado.

Eu chorava de saudades da Galicia: Quando nos 15 meses em que passei em São Paulo durante a última temporada do espetáculo da companhia e eu entrava no supermercado para fazer compras e me deparava com uma peça de queijo que custava R$ 450,00 (150€);

“A Galicia está um caos. Realmente. Observando o estilo de vida que os galegos estão acostumados a levar, com o que vejo hoje, digamos que a crise aqui está bem forte”.

Quando eu andava pelo centro da cidade de São Paulo e a população de rua dormia no meio da sujeira e acompanhada de inúmeros ratos e baratas que abriam caminho para eu passar;

Quando uma mulher estrangeira ficou sem roupa e traumatizada porque parou na frente de um edifício invadido por sem tetos no centro da cidade de São Paulo para pedir informação e quase lhe arrancaram o fígado;

Quando em determinados bairros do Rio de Janeiro é comum você ir à padaria e, entre um pão de queijo e outro, assistir a uma troca de tiros entre traficantes e policiais que precisam dar cumprimento ao programa social do governo de pacificação das favelas;

Quando você recebe R$ 800 (260€) de salário mínimo, mas tem que pagar um aluguel de R$ 1.500,00 (500€) e lê no jornal que um juiz de direito recebe, por mês, R$ 25.000,00 (8.300€) por mês e, não satisfeito, pede mais R$ 7.000,00 (2.333€) de ajuda de custo para matricular seus filhos num colégio particular; e

Quando você percebe que tudo isso já está demais e resolve sair do país. Foi o meu caso.

Se partirmos do princípio de que um país é o reflexo de seu povo, podemos afirmar que o Brasil só está assim, numa situação vexatória, porque o próprio povo aceita a sua condição de submissão. Vejam o resultado das últimas eleições no país: o povo optou pelo conservadorismo e moralismo, elegendo para cargos políticos pastores e ex-militares com a ditadura fresca na cabeça. E para dar um último tiro de misericórdia, alguns transeuntes pedindo, nas ruas de São Paulo, intervenção militar no país, com a falsa noção de que assim serão resolvidos os problemas do país. Em outras palavras: com o uso da força e da intolerância assim como vi os próprios manifestantes agindo.

Então meus amigos, de tudo isso só posso concluir que: Entre um país em desenvolvimento e um país em crise, mesmo com toda a crise, eu prefiro viver na Galicia.

http://www.sermosgaliza.gal/opinion/bruno-portela/mesmo-com-toda-crise-prefiro-viver-na-galicia/20141122230300032574.html